Desmistificando: Cenário feminino na Engenharia

Fala gente bonita e gente feia, tudo certo? Bom, hoje vou falar sobre certo assunto polêmico, que gera muitas discussões onde quer que ele seja posto na mesa: bar, sala de aula, reunião formal ou informal, na esquina da sua casa… Enfim, vou refletir um pouco sobre o espaço feminino na área da engenharia. Afinal, embora tenhamos superado muitos desafios dentro da profissão, ainda temos um longo caminho pela frente, rumo à igualdade de gênero. Não estou aqui para escrever um texto cheio de mimimis, sem fundamentos do qual vai endeusar um gênero sexual e menosprezar o seu oposto. E também não quero transformar a mulher em uma vítima, botando uma carapuça de coitadinha em minhas colegas de profissão. Estou apenas expondo o meu ponto de vista sobre o assunto, baseado no meu histórico profissional e em algumas pesquisas que realizei sobre tal abordagem.

O primeiro obstáculo profissional que enfrentamos até os dias de hoje, no Brasil, é o ponto de vista cultural retrógrado de algumas empresas. Isso porque, ainda existem locais que restringem a contratação de seus colaboradores, principalmente aqueles que ocupam cargos de liderança, ao sexo masculino, por exemplo. Tais organizações, muitas vezes, têm certa resistência em contratar uma funcionária mulher, pelo fato da mesma algum dia vir a se tornar mãe ou já ser. No primeiro caso, o medo das empresas está no fato da mulher ter que se ausentar durante a licença maternidade. Só que elas não levam em consideração que tal ausência é temporária. Elas ainda têm a visão de que, uma colaboradora mulher usará sua vida pessoal (os filhos, nesse caso) como motivo para eventuais faltas (fato que nos leva ao segundo caso).

Quando não, há empresas que até contratam mulheres engenheiras, porém para exercerem suas funções dentro de escritórios. O número de engenheiras trabalhando em campo ainda é muito inferior, comparado a seu sexo oposto. E, o ponto em que pretendo chegar com isso é: embora em ambas as áreas (escritório e campo), você desempenhe seu papel profissional, quem trabalha em campo acaba tendo uma remuneração maior do que no escritório, por vários motivos, dos quais não entrarei em detalhes. Segundo um artigo da ABES – SP, em 2013, uma engenheira recebia uma remuneração de 81% do valor pago a um engenheiro. E dez anos antes a situação era mais crítica, pois em 2003 a remuneração de uma engenheira era equivalente a 75% do valor obtido por um colega do sexo masculino. Agora a questão é: Por que não contratar uma mulher para um cargo de liderança em campo? Afinal, nesse caso não se pode usar a “desculpa” de que uma mulher não tem “força” para esse tipo de serviço, pois é algo que utiliza o intelecto e persuasão, características que independe de força física. Porém, algumas entidades (e pessoas também!) ainda tem o pensamento obsoleto com relação às aptidões naturais sobre cada sexo; Ainda há o preconceito de que as áreas de ciência e tecnologia são vistas como atividades masculinas, de que o sexo feminino é frágil demais para uma atividade fora “das quatro paredes”. É óbvio que existem mulheres que atuam em campo e eu já fui uma delas! Entretanto, o “X” da questão é o porquê o sexo ainda é um critério para a escolha dos profissionais, que exercem tais cargos.

História do cenário feminino na Engenharia.

Claro que não posso deixar de reconhecer que, desde que uma mulher pôs os pés em uma sala de aula de engenharia pela primeira vez no Brasil, até os dias atuais, muitas conquistas foram alcançadas pela nossa classe. De acordo com um estudo feito pela Carla Giovana Cabral, Doutora em Educação Científica e Tecnológica e professora adjunta na ECT/UFRN, embora o ensino de engenharia tenha sido inaugurado no Brasil em 1810, apenas no início do século XX, as primeiras engenheiras começaram a se formar. Por exemplo, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, dos anos de 1919 a 1922, a cada turma de engenheiro que se formou, havia apenas uma única representante mulher. Na Escola Politécnica de São Paulo, a primeira mulher a se formar em engenharia somente conquistou tal feito em 1928 e a segunda só veio se graduar em 1945. Mais tarde, já na década de 1970, o número de engenheiras a se formar na mesma universidade foi de 157 alunas e na década seguinte, esse número dobrou. Nos dias atuais, dados de um artigo publicado pela da Universidade Federal Rural de Pernambuco mostram que em oito anos, o número de alunas mulheres na USP cresceu 50%. Além disso, ainda falando em números, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP) mostrou em um estudo publicado que, em 1995 as mulheres representavam apenas 11% dos profissionais ativos do Estado paulistano. Dez anos depois, esse percentual aumentou para 15%; em 2008, 17% e em 2013, alcançou os 19%. Ou seja, desde o início do nosso ingresso na arte de engenhar até os dias de hoje, muitas águas rolaram, várias barreiras foram quebradas e muitas batalhas vencidas.

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No século passado, mulheres que estudavam e atuavam na área, como Evelyna Bloem Souto, engenheira civil formada pela Escola de Engenharia de São Carlos, sofreram inúmeros preconceitos para conseguirem alcançar seu espaço. Segundo um artigo postado pelo Blog da Engenharia, ela relatou que, tanto na época em que estudava, no final da década de 1950, quanto quando fora exercer a profissão, a mesma se deparou com problemas relacionados à intolerância sexual. De acordo com as próprias palavras de Evelyna, na época em que estudava, durante uma visita à construção do túnel que interliga a França com a Itália, a mesma foi obrigada a se vestir de homem, colocar galochas, prender os cabelos e desenhar barba e bigode em seu rosto para poder verificar a obra. Além dessa situação, ela também contou que, depois de formada, sofreu preconceito dentro da própria universidade em que se formou. Durante a criação do Departamento de Geologia e Mecânica dos Solos na instituição, ela fora contratada como bibliotecária pelo presidente, para que ninguém soubesse que ela era engenheira. Tais situações ilustram um cenário que, graças a Deus, teve uma melhora significativa, mas que ainda tem muito que evoluir. A participação das mulheres em atividades voltadas mais para o lado técnico ainda é baixa, funções essas que obtêm remunerações mais altas (fato que já foi citado a dois parágrafos acima).

Incentivando a nova geração de Engenheiras.

Mas, refletindo sobre as novas gerações de engenheiras, como incentivar as meninas mais novas a ingressar no mundo da Engenharia? Pensando nessas crianças, uma empresa internacional criou uma linha de brinquedos, para meninas de cinco a nove anos, que as estimula ao interesse pela área. O brinquedo consiste em um livro de história e um kit de construção. Na história do livro, a protagonista Goldie junto com sua turma precisa solucionar uma série de desafios de Engenharia e, no meio disso, construir algo que ajude seus amiguinhos. Tal brinquedo além de incentivar as garotinhas pelo fato de ter uma protagonista feminina, ainda mostra que elas podem engenhar desde pequenas. Você, leitora ou leitor, deve estar se perguntando: mas por que raios tem um livro em um brinquedo voltado para a engenharia? De acordo com a criadora do brinquedo, a engenheira Debbie Sterling, depois de realizar algumas pesquisas, descobriu que enquanto meninos apenas gostam de construir coisas, pelo simples fato de construir, as meninas precisam de um enredo para poder construir algo, um motivo para aquilo que estão fazendo. Essa criação foi uma sacada e tanto, não acham?

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Fonte: Site oficial da Goldie Blox

Bom galera, essa foi uma pequena reflexão sobre a minha visão do cenário feminino na Engenharia. Espero não ter ofendido nenhuma classe e que você, leitora e leitor, tenha absorvido a ideia dessa postagem da maneira correta e agregado valor aos seus conhecimentos. E se você tem alguma sugestão para as próximas postagens ou quer deixar o seu ponto de vista sobre o assunto abordado, deixa um comentário aqui abaixo, beleza? Sua opinião é muito importante para o crescimento do nosso Blog.

Até a próxima!

Amanda Lima.

3 Comentários

  1. Ótimo post Amanda!!! Estamos caminhando em passos lentos, mas infelizmente ainda tem esse tipo de desigualdade principalmente dos trabalhadores mais velhos, onde para eles lugar de mulher é dentro de casa. Mas na minha opinião, o principal motivo de haver esse tipo de discriminação é que o orgulho masculino. Sim, o homem é orgulhoso por natureza, sente medo da mulher tomar o seu lugar na obra ou em qualquer outro lugar no mercado de trabalho, que ganhem mais e virem “o homem da casa”. É um status de poder que dá ao homem mais autoestima e tem medo de perde-la, consequentemente não cede espaço para a mulher trabalhar. Enfim, a geração atual já vem com uma mentalidade diferente sobre esse assunto, essa qual o gênero será indiferente na hora da contratação, se sabe fazer um bom projeto, coordenar a equipe de obra e dentre outras funções será contratado e bem remunerado pela sua capacidade técnica e interpessoal. Enfim, tem muitas outras coisas que gostaria de discutir sobre esse assunto, porém sou uma pessoa de exatas. Bjos!!!!

    • Eae Vinicius, primeiramente, obrigada pelo obrigado pelo comentário! E concordo, plenamente, com o seu comentário muito bem colocado. Seria hipocrisia se falássemos que a desigualdade não existe, entretanto ela está diminuindo a cada dia que passa. Temos que ser otimistas e acreditar que, um dia, a discriminação sexual será um mera coisa do passado… Beijos e aguardo você nos próximos posts! :)’


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